TV POR ASSINATURA – HÁ VIDA APÓS O STREAMING!

É lugar comum entre os analistas de mercado e consumidores de conteúdo audiovisual referir que os serviços de streaming irão “acabar” com o mercado de TV por assinatura. Será mesmo que a “nova” tecnologia substituirá por completo o modo como as pessoas consomem conteúdo audiovisual, apontando para a extinção do mercado de TV por assinatura?

Para que possamos responder à questão acima, necessário explicarmos, ainda que de maneira sucinta, como funciona o mercado de TV por assinatura, cujo marco regulatório é a Lei 12.485/2011, e os serviços de distribuição de conteúdo audiovisual via streaming.

Assim, trata a referida Lei 12.485/2011 de estabelecer o regramento básico de funcionamento do nicho de negócio denominado de TV por assinatura. Para tanto, em seu artigo 2º, fixa os conceitos a serem respeitados. Entre eles, temos os pilares do referido mercado, quais sejam, os serviços de produção, programação, empacotamento e distribuição.

Portanto, no que se refere ao mercado de TV por assinatura, a “cadeia” inicia com a produção do conteúdo audiovisual por uma ou várias produtoras, sendo, após, organizado em canais de programação pelas programadoras. A seguir, os diversos canais são organizados em “blocos” ou “pacotes” pela empacotadora e disponibilizados aos assinantes pelas distribuidoras.

Já no que diz respeito aos serviços de streaming audiovisual, possuem como principal característica, a distribuição de conteúdo aos seus assinantes através da rede mundial de computadores. Assim, a grosso modo, o que fazem é “compactar” a cadeia de serviço da TV por assinatura, excluindo ou absorvendo as etapas de “programação” e “empacotamento” e realizando, de forma direta ou através de contratos de licenciamento, as fases de “produção” e “distribuição”.

Case de sucesso desse tipo de serviço, O NETFLIX, de início, não produzia conteúdo, apenas licenciava e distribuía on demand. A premiada série House of Cards, por exemplo, foi produzida inteiramente pela produtora Media Rights Group. Seu licenciamento foi um leilão entre HBO e NETFLIX pela compra dos direitos (o valor final, pago pela Netflix, foi de 100 milhões de dólares por 26 episódios, em duas temporadas). Hoje em dia, no entanto, o NETFLIX tem se voltado cada vez mais para produção do seu próprio conteúdo, a ponto de prever investimentos, para o próximo ano, na ordem de US$ 7 Bilhões na produção de conteúdo original.

O NETFLIX, portanto, disponibiliza aos seus assinantes, através da internet, um variado catálogo de filmes e séries, sejam originais ou licenciados, que podem ser assistidos no computador, tablet, celular ou Smart TV, a qualquer hora. Ainda, possui valor mensal de assinatura baixo se comparado ao serviço de TV pago. Com tantas vantagens, você deve estar se perguntando: até quando as operadoras de TV por assinatura sobreviverão a uma competição dessas?

Arrisco dizer que sobreviverão, ainda, por muito tempo, talvez não por méritos próprios, mas em razão de futuras alterações que impactarão os serviços de streaming. Aponto alguns fatores para assim considerar:

1) Proliferação de serviços de streaming e consequente aumento da concorrência;

2) Criação, pelas grandes produtoras de conteúdo, de seus próprios serviços de streaming, não mais permitindo o licenciamento dos seus produtos para os demais serviços. Exemplo desse movimento é o anúncio da Walt Disney de que terá plataforma própria para distribuição do seu conteúdo on demand;

3) Incapacidade dos serviços de streaming manterem conteúdo das principais produtoras, reduzindo a opção de escolha pelo consumidor;

4) Possível edição de normas de “regulação” do serviço de streaming, impondo obrigações semelhantes às aplicáveis ao serviço de TV por assinatura, como, por exemplo, a obrigatoriedade de conteúdo brasileiro e produzido por produtora brasileira independente (art. 16, Lei 12.485/11), ou, ainda, submeterem-se à regulação e fiscalização da ANCINE (art. 9º, parágrafo único, Lei 12.485/11).

5) Concentração dos serviços de internet nas mãos das empresas de telecomunicações e integração dessas com as empacotadoras/distribuidoras de conteúdo audiovisual de TV por assinatura. Como os serviços de streaming demandam a utilização de bandas cada vez maiores de internet, o fato do acesso estar concentrado nas companhias que exploram o mercado de TV por assinatura pode representar uma ameaça concreta à prestação de serviço de qualidade pelas empresas distribuidoras de conteúdo por streaming.

Como se vê, o mercado de entretenimento audiovisual é muito mais intrincado do que parece. Nesse contexto, afirmar taxativamente o ocaso do serviço de TV por assinatura é mero empirismo ou exercício de adivinhação. Ainda há muita água para rolar embaixo dessa ponte.

TV POR ASSINATURA – HÁ VIDA APÓS O STREAMING!

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